
Antes de mais nada, queria me desculpar pelo hiato súbito. De fato, não tinha planejado interromper a news por dois meses inteiros. Acabei passando por algumas mudanças (a grande maioria delas bem positivas, aliás) que atropelaram o planejamento inicial. Finalmente, estamos de volta.
Feira de Santana é uma das cidades mais violentas do mundo. Pelo menos é o que diz a ONG mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e a Justiça Penal. Essa não é a primeira vez que essa mesma organização faz essa lista. Também não é a primeira que Feira de Santana aparece no ranking, ou que cidades do Brasil e do México liderem a lista. De fato, o cálculo por cem mil habitantes maquia a violência em outros centros e direciona o debate pra uma esfera que, bem, é fácil de ser usada como massa de manobra política.
A estética do medo também é racial. Quando falamos de violência urbana, criamos uma escala maior de insegurança, que nivela as desigualdades e coloca todos num mesmo patamar de vulnerabilidade. O que não é verdade. Pessoas negras sofrem com encarceramento em massa, assassinato sistêmico e violência estatal; nordestinos sofrem com descaso público de um projeto de exclusão secular; latinos são tratados como inimigos do desenvolvimento quando, na verdade, não existiria mundo ocidental moderno sem a latinidade.
Esse caldeirão borbulha e é repleto de agressividade. A consciência da realidade nos revolta. E quem bem analisou isso foi o Casimiro.
As efervescências sociais causam medo. Tanto na classe trabalhadora feita de massa de manobra, que se sente culpada justamente por ser condicionada a acreditar que é, quanto pela elite que a condiciona e tem medo de perder privilégios. Esse medo social também desboca em narrativas de terror, que até trouxe em outro texto sobre zumbis e vampiros, que você pode ler aqui. E terror não é somente sobre dar ou não sustos nos leitores, mas sobre tratar tensões, causar desconforto e metaforizar sentimentos.
Pensando nisso resolvi trazer duas formas de como dosar a agressividade numa narrativa de terror, mas com dois exemplos que não são, nem de terror, nem de literatura: La Haine e Michael Jackson.
La Haine

Cinéfilo ou não, todo mundo já ouviu falar sobre o cinema francês. De fato a Europa não é das coisas que mais amo no mundo (bem longe disso), mas o cinema francês traz boas ideias. La Haine é uma delas.
Reassisti esse filme a alguns dias depois de uma primeira vez, que aconteceu a alguns anos. Uma história forte, que conta a trajetória de três jovens (Saïd, Hubert e Vinz) que vivem na periferia de Paris durante os protestos contra o Contrato de Inserção Profissional (CIP), que previa a contratação de jovens para mão de obra por um valor abaixo do mínimo nacional. Durante essas manifestações, um dos companheiros dos três protagonistas é ferido por um policial; Vinz encontra uma arma da polícia; uma trilha de agressividade se forma.
O filme é todo tenso. Os acontecimentos vão escalando rapidamente e gerando desordem. E eu até gostaria de falar mais do filme aqui, mas não quero dar spoilers (vocês podem assistir de graça pelo YouTube legendado e em HD clicando aqui).
O grande ponto desse filme é que durante todas as cenas, a tensão é interrompida abruptamente e recomeçamos a contagem. Temos um curtíssimo momento de calmaria, depois ânimos à flor da pele, um estresse cumulativo, despejo de emoções e, quando o espectador já espera a evolução da situação, aquilo acaba momentaneamente. Até o final, que te dá a impressão de ser inevitável. Mas de fato o é?
La Haine significa “o ódio”. Em todo o momento você vê esse sentimento transbordando dos personagens, sobretudo do Vinz, interpretado pelo Vincent Cassel (Shrek, Cisne Negro, A bela e a Fera, Westworld). Ele representa como ninguém o conceito da arma de Tchekov porque ele personifica o gatilho. À cada momento que ele entra em cena, prestamos mais e mais atenção no que ele vai fazer, porque nos é muito claro que, com uma arma na mão, é ele quem decide se pode ou não fazer. E num contexto onde a defesa (não somente pessoal, mas ideológica) é a base de sustentação argumentativa, a violência não vira um “se” e sim um “quando”.
Aqui podemos tomar algumas notas:
Entender que o caos não segue um padrão;
Entender que o caos, ainda que não segue um padrão, tem uma causa;
Entender que o caos, sem padrão e com causa, vai atingir as classes menos favorecidas;
Entender que a agressividade é uma arma e é necessária para a sobrevivência das classes menos favorecidas;
Entender que a agressividade em demasia turva a visão e alimenta o caos;
Posicionar um elemento de perigo pelo qual a tensão vai orbitar;
Escolher quando e como retirar o foco da tensão para preparar o leitor para a sequência seguinte.
A partir disso já conseguimos traçar uma narrativa mais tensa, mas que não precisa se sustentar dentro dos artifícios de roteiro clássicos. Terror e susto não são sinônimos; a escalada da narrativa também tem seu peso.
Michael Jackson

Pode parecer estranho trazer um artista musical para um texto sobre agressividade e terror, sobretudo se tratando de um artista negro, mas justamente pelo fato do Michal Jackson ser extremamente inteligente e sensível na hora de contar suas histórias que é tão interessante pensar um pouco mais sobre alguns dos clipes dele.
Existe um padrão michaeljacksiano em tratar desse assunto. Beat It foi o primeiro clipe em que o rei do pop dançou na frente de muitas pessoas. Também existe o fato curioso de que muitos dos bailarinos do clipe eram membros das gangues Bloods e Crips, rivais históricas nos Estados Unidos — e que não sabiam do que se tratava a gravação. Michael foi o elo entre esses dois grupos, tanto nos bastidores quanto no clipe.
Começamos com uma cena super tensa em um bar, onde esses polos se preparam pro embate enquanto a música fala que você até pode ser durão, mas precisa arcar com as próprias consequências (e que mostrar quem manda mais não necessariamente define quem está certo ou errado). Michael começa no quarto de casa, num ambiente completamente exterior e começa a transitar pelo cenário do bar, que vazio, ganha um outro significado. Aqui sequer temos uma performance de dança, somente esse passeio solitário do Michael, ressignificando o local. Depois, temos o momento do embate entre os grupos, interrompido pela figura do Michael, que transforma aqueles movimentos de combate em dança. A “dança” não esconde a agressividade, só redireciona o olhar a mesma história a partir de outro ponto de vista.
Em Bad, vemos Michael atraindo pra si o rótulo de mau enquanto retira o foco do grupo de bailarinos, com grande parte deles sendo de minorias étnicas, que são personificados como inimigos públicos. Ele, aliás, passa uma mensagem bem dura nesse sentido: a dança na maior parte do clipe segue movimentos mais bruscos e só depois que todo o corpo de bailarinos passa a se desprender da agressividade (que agora está com Michael) é que ele se vê livre pra transformá-la. Vemos o mesmo acontecer clipe de Smooth Criminal, onde tudo se passa numa briga de bar super tensa; na apresentação de Dangerous no MTV Award de 1995, em que a música fala dos perigos do amor e o corpo expressa uma disputa física entre Michael e os dançarinos por esse amor; Thriller, onde corpos sem vida ou consciência ameaçam uma mulher negra em uma rua escura enquanto a canção fala dos perigos de se estar sozinha. E por aí vai.
Daqui, também conseguimos tirar algumas lições:
A ressignificação de espaços e personagens para apresentar mais de um ponto da narrativa;
Entender a importância do subtexto para a construção do sentido;
Entender que o corpo e as expressões dos personagens falam tanto quanto um diálogo;
Aprender a diferenciar agressividade de atitude e postura, e que uma coisa não depende da outra para ser validada.
Novamente saímos de uma ideia pré-definida de pensamento narrativo para o que pode ser o terror e trazemos camadas de substância justamente para tornar a história menos dependente de artifícios de gênero e posicioná-la em um outro lugar.
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