O brasileiro tem uma relação meio esquisita com a ideia de independência. Todo mundo sabe que dia 7 de setembro é o dia da Independência do Brasil, mas, pra mim, que sou baiano, esse dia é o 2 de julho. São ideias diferentes de independência: de um lado, temos uma dita proclamação; do outro, uma batalha pelo direito de ser independente. Na prática, nem um, nem outro são, de fato, o que dizem ser. Pelo menos, não pra mim.
Quando os negros escravizados do Haiti declararam a independência do país, em 1804, pode até ter se criado uma ideia momentânea de felicidade, de liberdade, mas a própria história mostra que não foi isso o que aconteceu. O país foi afundado numa dívida histórica, marginalizado pelo mundo europeu, mesmo depois de todas as outras colônias terem visto o que eles fizeram. O projeto de anti-haitinização foi o motor que criou a polícia militar brasileira; impedir que os negros daqui fizessem o que os negros de lá conseguiram era a prioridade de quem queria nos manter dependentes.
Dom Pedro I não declarou a independência por querer se desprender das amarras de Portugal, e sim porque não queria voltar pra Portugal com a corte. A Coroa portuguesa não enviou tropas para o Brasil pra combater um movimento genuíno e popular por liberdade, e sim pra dar um susto em Dom Pedro I. Por isso, não vejo nossos processos de independência com o mesmo olhar que vejo o do Haiti ou o de outras colônias europeias, seja na América Latina ou na África. Acho que a gente nunca entendeu muito bem essa palavra.
Quando penso no que isso significa pra mim, penso em lutar por aquilo em que acredito e andar com as próprias pernas, mesmo que se quebre o pé no meio do caminho.
Sou um autor independente desde 2013, mesmo antes de saber o que isso significava na prática. O início foi esquisito, porque eu não conhecia ninguém, não entendia como produzir e apresentar meu trabalho, ou sequer como, de fato, fazer um bom trabalho. Nem sempre fui o melhor; muito pelo contrário, precisei ser ruim, bem ruim. Fiz por anos as capas e diagramações das minhas histórias, sempre trabalhei com divulgação por conta própria, fosse nos grupos de Facebook ou no Twitter. Sempre apresentei sozinho meu trabalho pra editoras e outros profissionais do livro. Literalmente, comecei de baixo.
Nem sempre a vida de autor independente me colocou nas melhores posições. Escrevi várias histórias de que sequer gostava, em temáticas que não conversavam com quem eu era, tudo em busca de uma oportunidade. Publiquei, mais de uma vez, histórias em projetos sem o mínimo de cuidado literário, fosse uma boa edição, uma boa revisão ou um projeto gráfico decente — isso sem falar na quantidade de vezes em que tive que fazer, por ditas editoras, o que elas deveriam fazer. Tomei golpes, passei muita raiva, desisti e voltei várias vezes pra vida de escritor.
A cada erro, acerto e dor, fui criando cada vez mais a ideia de que a arte não pode ser feita apenas pensando no produto final, na exposição dela, e sim no propósito. Enquanto artista, tenho um propósito, e aquilo que faço também tem que ter. Defender esse propósito é o que me torna independente.
Não posso dizer que a vida de autor independente não me rendeu frutos. Ajudei a criar um movimento literário, o sertãopunk; dei aula no Sesc e palestrei no Pretaenerd em parceria com a Intel; vi o sertãopunk atravessar o oceano em eventos nos Estados Unidos, Portugal, Inglaterra e Áustria; tive um conto, Abrakadabra, selecionado pra uma tiragem de livros didáticos na rede pública do meu estado, a Bahia, para jovens do nono ano.
Nada disso foi fácil. Nem sempre fui feliz e não posso dizer que a independência me tornou livre, mas caminhei um longo caminho com minhas próprias pernas. Quebrei o pé algumas vezes, e só não cheguei mais longe porque vim de muito, muito longe.
O prazer da independência
Em 2024, estava passando por um processo difícil. Tinha acabado de ser demitido após voltar de um afastamento por burnout, com uma série de dívidas pra pagar por conta de uma série de problemas de saúde do meu gato — que, até então, já tava me custando quase um Celta — e ainda estava em processo de mudança. Nesse mesmo período, passei a refletir ainda mais sobre o que era ter uma casa, viver e como a moradia molda nossa vida adulta.
Já morei em tudo quanto é tipo de configuração de casa: morei de aluguel com meus pais, em casa própria, na casa de parentes, em hostel, república e, hoje em dia, moro só. Mas essas vivências, por mais que estivessem em mim, não estavam representadas na minha arte. Fosse por ter me colocado (ou me sentido colocado) no lugar de um autor de terror e suspense, fosse por simplesmente não ter tentado. Precisava encontrar um novo propósito na minha arte. Foi aí que nasceu Hotel Arnaud.

Nunca foi minha intenção criar histórias sobre medo, mas sim sobre vivências, maturidade, relacionamentos, coisas que, hora ou outra, até apareciam aqui e ali nas histórias, mas que ficavam em segundo ou terceiro plano. Hotel Arnaud me deu a possibilidade de explorar isso, mesmo ainda mantendo um cheiro do que já fazia, fosse trazendo o realismo mágico pra uma coisa meio assustadora ou criando histórias absurdas. E, sobretudo, que esse fosse um material de fácil acesso e leitura, disponível na Amazon pra quem quisesse.
Por dois anos, rodei esse material numa série de editoras. Tinha um agente responsável por apresentar o livro, mas a relação Alan x editoras ainda é algo que preciso amadurecer. Sou o tipo de profissional que respeita prazos e combinados, que odeia ser ignorado ou receber meias-respostas.
Hotel Arnaud foi recusado em vários lugares, nunca por mérito literário. Todos os feedbacks eram sobre como era bem escrito e cativante, só que sempre com um “mas”: mas não é o que buscamos, mas é muito curto, mas é uma coletânea e não um romance, mas você não cria conteúdos nas redes, mas você não tem pelo menos 10 mil seguidores…
De novo, voltamos ao propósito da arte: se nunca foi minha ideia ter esse livro numa casa tradicional, qual o sentido em insistir nisso? Veja, não estou dizendo que editoras não são importantes, ou que não queira tentar publicar algo numa casa editorial no futuro, mas acredito que cada trabalho precisa ser do jeito que tem que ser. E, pra fazer o que precisa ser feito, eu não posso ser dependente.
Eu não tenho interesse numa publicação somente pelo selo na capa. Não me interesso por uma falsa ideia de fama, não sonho com lista de mais vendidos da PublishNews e pouco me enche os olhos ficar arrotando arrogância literária por aí. Meu compromisso é com a arte literária e com a língua brasileira. E, pra isso, vou andar com minhas próprias pernas, mesmo que quebre o pé algumas vezes no meio do caminho.
Independência pode não ser sinônimo de felicidade ou liberdade, e o Haiti é prova disso. Mas, pra quem sabe onde quer ir com as próprias pernas, independência é tudo.
Adquira Hotel Arnaud na Amazon. Também disponível pelo Kindle Unlimited. Custa menos do que gastei em capa, revisão, diagramação, registro de direitos e remédio pra dor de cabeça. Só clicar aqui.
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