
Algum tempo atrás, não lembro exatamente o mês, mas em 2023, surgiu um debate no Twitter sobre as limitações do terror. Não me recordo como ou porquê, mas entre muitos temas, também se falava sobre como autor x ou y escrevia sobre temas sensíveis.
Bem, eu não tenho nada a ver com isso.
Mas esse papo sobre as limitações temáticas que podem/devem ser aplicadas no terror, de fato, é um assunto interessante. Até porque, os medos se transformam com a sociedade e muita coisa precisa ser atualizada. Isso, fora o fato de que vivemos em transformação constante com as novas tecnologias que pipocam todo dia.
Então esse espaço de hoje vai ser pra falar sobre algumas coisas: como parte da neurociência explica o medo, como essas reações neurais são interpretadas socialmente e até onde se consegue ir na aplicação literária disso (ou o que fazer quando se chegar lá).
Como sempre, esse é um texto opinativo. Você pode discordar completamente e tá tudo bem.
Medo na neurociência

Em 2002, um grupo de pesquisadores do Núcleo de Psicobiologia da USP de Ribeirão Preto levantaram evidências de três estruturas neurais primitivas, tão influentes quanto a liberação de adrenalina e outros hormônios pelo hipotálamo, e que agem nas reações que temos quando sentimos medo. Não vou nem tentar explicar os termos técnicos (vocês podem ler tudo sobre o estudo aqui), mas, basicamente, temos:
O reconhecimento de um local associado a um trauma e a lembrança desse momento;
Distinguir um som normal de um som assustador, e as reações que a gente tem quando escuta o segundo;
Congelar em situações perigosas.
Essas "percepções" estão em uma estrutura mais primitiva da nossa biologia, o que dá a entender que são reações, situações, medos, enfim, que nos acompanham desde sempre e fizeram parte da nossa evolução (odeio esse termo pra isso, aliás).
Mas aqui, já temos três pontos importantes da vida em sociedade: os perigos de estar em uma região perigosa, ou que inspira medo; a fala como o som, ou muito alto, ou inexistente, também sufoca; e como não conseguirmos lidar com certos tipos de coisa.
Vou partir deles pra contextualizar minha visão de terror.
Terrores sociais

Ainda que não sejam unanimidade (nada na História é), a gente percebe alguns padrões com relação aos medos na sociedade. Um deles é a ideia de regiões perigosas. Hoje, temos as periferias, ou zonas de conflito (como parte do Oriente Médio e leste da Europa), ou apenas regiões ideologicamente conflitantes de superpotências (e a lista aqui é enorme). Mas o que todas têm em comum é a criação da ideia de inimigos públicos. O medo do outro é calcado na ideia de que o inferno são os outros, e quando criamos a imagem de inimigos públicos, fica fácil apontar o dedo e colocar nossas culpas e temores onde não deveriam estar.
Quando saímos do ponto de ver uma região diferente como ela é e passamos a ver como regiões inimigas, tudo o que vêm delas passa a constituir uma ideia de medo. E não se precisa estar fisicamente. nela para isso, porque basta a ideia da existência pra que esse gatilho seja ativado. Você não precisa pisar numa favela do Rio de Janeiro, por exemplo, pra pensar que ela seja uma região que te causa medo, porque socialmente se construiu assim.
Visitar uma favela poderia fazer alguém amedrontado com ela mudar de opinião, mas aí chegamos no segundo ponto: o som, o discurso, a fala. A comunicação cria texto, contexto e reforça, na língua falada e escrita, o que se quer. Enfrentar tal medo pode ser tão assustador quanto porque vai contra o discurso (e aqui não digo discurso externo, mas de nós mesmos, do que absorvemos da sociedade e replicamos pra ela).
E aí vamos pro terceiro ponto: o congelamento da ação. Se diante do que nos causa medo, primitivamente, tendemos a congelar, não existe movimento contrário ao que nos causa medo. Seja o enfrentamento físico à ideia estabelecida de quem, ou o que, pode nos aterrorizar, ou até de “peitar” nosso próprio discurso, nada muda. O medo segue o mesmo.
Qual o papel da literatura de terror?

Talvez por um mal costume do cinema de terror estadunidense, que se preocupa muito mais em gerar franquias e bem menos em pensar criticamente (até porque os EUA são o medo de muita gente), se tenha criado uma falsa ideia de que o terror enquanto gênero é para dar sustos. Ou, "dar medo".
Só que o terror, na real, tá muito mais pra uma forma de nos fazer refletir sobre o que nos causa medo.
Medos particulares também existem. Altura, insetos, alguma figura famosa. Eu tenho medo de palhaços, por exemplo. E morei com um cara que tinha medo do Michael Jackson. E tudo bem ter medos pessoais. Tais temores também estão condicionados dentro daqueles três pontos lá de cima e são bem representados, tanto na literatura do gênero, quanto na cinemateca. Inclusive, acho que o ponto alto desses medos pessoais são as possessões, mas prefiro falar disso num texto específico.
Mas se tratando dos medos sociais, o terror tem um papel fundamental em levantar questões e criticar certos tipos de posturas e entendimentos. Obras como Território Lovecraft, Frankenstein, Os perigos de fumar na cama, Gótico nordestino, Gótico mexicano e tantas outras, que trazem medos globais, como os perigos do desenvolvimento da ciência atrelados a uma ideia de hegemonia genética, medos causados por uma ditadura militar ou até mesmo o medo causado pelo racismo existem por um motivo: nos fazer refletir sobre nossos medos.
Dito tudo isso, não existem limites pro que o terror pode ou não falar. O que vejo é uma responsabilidade dos autores em tratar esses temas com a robustez que eles merecem. Esse é um ponto editorial, que precisa se atentar às construções de personagens, worldbuilding e subtexto pra garantir que a mensagem que o autor quer passar está, de fato, sendo passada da maneira adequada. Se autor A ou B constrói uma narrativa que, ao invés de criticar, reforça esses medos, não é um problema do gênero e sim de escrita.
O terror é esse elo de ligação entre uma proposta estética e o criticismo por ser um gênero descarado, muito menos preocupado com o que vão achar dele e mais focado em contar o que precisa ser dito da forma mais escrachada. Por isso ele te leva onde precisa: a reflexão do medo. Não se sinta amedrontado por tratar de temas sensíveis numa obra de terror. Entenda sobre o que você quer apontar, estude um formato de narrativa que se adequa com o seu ponto e trabalhe editorialmente pra passar sua visão com consciência. Fazendo isso daí, tudo é permitido.
O texto chegou ao fim mas esse é um daqueles assuntos que claramente dá pano pra manga e vai aparecer nas redes sociais novamente. Mas até lá, espero que estejamos menos preocupados com o que pode ou não ser dito (como se o discurso fosse um bem privado carente de pré aprovação) e muito mais com o que tem sido feito ou não.
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