É engraçado como as coisas são. Em 2023, não imaginei que um rascunho de ideia de 2019 seria uma das paradas mais legais que publicaria, nem que em 2026 voltaria de novo a mexer nisso e fazer um relançamento. Xuxa Preta vai ganhar uma edição nova e, na moral: tô doido pra mostrar isso pra todo mundo.
Mas antes da gente falar o que tem de novo, é importante falar de como chegamos até aqui.
Apresentando: Xuxa(s) Preta(s)

Em 2019, conheci através de um site de reportagens especiais da minha cidade, o Feirenses (que hoje em dia já não está mais na ativa, infelizmente) a história da Xuxa Preta, uma suposta criminosa que aterrorizou a cidade entre o fim dos anos 80 e 90 em Feira de Santana. Eu sou de 95, passei a primeira infância (até os 8 anos) morando em São Paulo e quando retornei pra Feira, já não se falava dela. Claro que histórias sobre crimes tinham de monte: tinha uma rua perto da minha casa que se dizia viver uma criminosa que assaltava quem passasse por lá e dava tiros no pé da vítima pra “fazê-la dançar”, tinha muito crime na favela, muita gangue pequena, muita rixa entre bairros, mas não tinha Xuxa Preta.
A Xuxa Preta era descrita como uma mulher negra alta, de black power com uma cicatriz no rosto, que algumas pessoas diziam ter sido feita numa briga de bar, quando reagiu a um assédio. O que se dizia é que ela sequestrava crianças e as colocava pra cometer crimes, muitas vezes em frente a outras escolas, e que essas crianças também eram usadas como “RH do mal”, pois aliciavam outras. Tinham casos, inclusive, de jovens que levavam objetos na mochila pra se proteger da gangue da Xuxa Preta.
Só que a Xuxa Preta nunca foi o tipo de lenda urbana como a Loira do Banheiro, por exemplo: ela não é associada a uma maldição, assombração ou esse tipo de coisa, ao mesmo tempo que também não é uma história como o Velho do Saco ou a Gangue do Palhaço. Na real, ninguém sabia muito bem o que tinha rolado com ela, se tinha sido morta ou não, presa ou não, se existia ou não; tinha gente que dizia que ela tinha se casado com uma mulher, que tinha ido vender frutas na feira, que tinha virado cantora e por aí vai.
Depois que conheci a história, e conversei com algumas pessoas sobre ela, descobri que existiam outras lendas semelhantes por aí: gente de Goiás, Maranhão, Rio Grande do Sul, dizendo que tinha Xuxa Preta, Xuxa Doida (inclusive uma matéria de um jornal do Espírito Santo diz o paradeiro da suposta Xuxa Preta). Claro que existem diferenças entre as Xuxas: a de Quixadá (CE) recebeu o nome pelas crianças, isso porque gostava de se enfeitar e ficar na praça atrás de um bom partido, a de Terezinha era uma moradora de rua, mas a de Feira de Santana era uma criminosa articulada que comandava uma quadrilha de menores infratores, e aqui a gente tá falando de muita coisa.
Feira de Santana sempre foi tratada como uma cidade perigosa, até porque, além de grande, é um entroncamento rodoviário, tem gente de todos os lugares circulando o tempo inteiro e isso é bom e ruim. Mas existe crimes e crimes; o perigo das facções criminosas de hoje não é o mesmo do que eram as disputas de traficantes menores entre bairros da minha adolescência, nem o que foi a pobreza extrema dos anos 90. A lenda da Xuxa Preta feirense, formatada como foi, era quase que um aviso moral pras crianças da época; crianças essas que tinham a TV como babá e a Xuxa como rainha. E se a ídolo das crianças é uma Xuxa loira e bela, quem é o oposto dela? No fim do dia, também era uma lenda sobre raça.
Início da ideia e primeira versão

Depois das pesquisas, comecei a rascunhar, ainda em 2019, uma história pensando na lenda da Xuxa Preta, mas a coisa era completamente diferente: seria a história de um jornalista que iria atrás de informações sobre a Xuxa Preta, conhecia um velho que supostamente tinha sido subordinado dela e os dois iam narrando as coisas. Escrevi um pouco disso, mas não cheguei num lugar maneiro e larguei de mão.
Quatro anos depois, em 2023, meu agente Dante me perguntou se tinha algo na gaveta. Nossa ideia era tentar uma publicação na Strange Horizons, uma revista de ficção gringa, e fui olhar pro Xuxa Preta de novo. Eu tinha uma ideia, mas não tinha um formato. Depois de testar algumas coisas, cheguei numa estrutura que achei maneira e fiz a primeira história, do Maurício, e mandei pro Dante. Com o ok dele, fiz mais outras. Mas por ser uma lenda urbana tão aberta em possibilidades, sentia que poderia fazer histórias sobre tudo com a Xuxa Preta. Nunca me passou pela cabeça fazer um romance, ou fazer uma história centrada nela, sempre quis falar das pessoas, da convivência com a lenda, e cada coisa que tinha em mente sobre Feira de Santana me dava mais insumos. No fim, fiz nove histórias, mas o edital da Strange Horizons pedia algo de até 10 mil palavras, então fiz uma versão curta com quatro delas.
À época, também tava escrevendo um projeto chamado Estado Hipnagógico, uma coletânea que reunia alguns trabalhos que já tinha publicado: Abrakadabra (que foi parte da Coleção Carcarás da Corvus e hoje está num material didático de escolas públicas da Bahia), La Mazka (que também foi pra Carcarás), Schizophrenia (conto que estava no manifesto “Sertãopunk: Histórias de um Nordeste do Amanhã) e outras histórias inéditas que conectavam melhor todas numa coisa só. Acabou que a publicação da Strange Horizons não rolou e resolvemos publicar na Amazon, mas como já tinha esse outro projeto em andamento, que acreditava sair no mesmo ano (mas que ainda não veio ao mundo, tô trabalhando nele até hoje), nem me atentei em juntar todas as histórias e fazer uma publicação grande.
Fato é que a publicação do Xuxa Preta ganhou muito destaque, alcancei muita gente e o livro ficou até que conhecido pra uma história independente tão curta e de um gênero b-side que é o suspense. Isso me fez preparar a versão mais longa, com todas as histórias que tinha e tentar publicar novamente. Aí é aquilo: bate na porta de um, de outro, de outro e nada. Coletâneas não são bem-vistas por editoras tradicionais, só que, tipo, eu sou contista, então é o que tenho na maioria das vezes. Mas no fundo, queria mostrar pras pessoas o que tinha de fato com o Xuxa Preta, por isso resolvi investir no indie novamente: uma campanha de financiamento no Catarse pra dar uma versão física e definitiva pra história.
O que esperar da nova edição

Xuxa Preta: Edição Definitiva conta com nove histórias: as quatro que já estavam na Amazon e outras cinco novas. Mas o que parece pouco, na prática não é: além de edições pontuais nas histórias anteriores, com algumas cenas novas, as histórias novas agregam em muito no tamanho do livro. Se antes estávamos falando de 10 mil palavras, agora são 35 mil, três vezes e meia o tamanho do anterior.
Pra além do acréscimo em texto, as novas histórias também trazem novos pontos de vista sobre a lenda da Xuxa Preta: temos Valéria, uma feirante que vive uma situação de conflito com a prefeitura quando o boato de que a Xuxa Preta virou verdureira passa a correr pela feira livre; Samara, uma funcionária de um cinema que passa por uma confusão durante o lançamento de um filme inspirado na Xuxa Preta; Sérgio, um policial que presencia um assassinato “cometido” pela Xuxa Preta na rua de casa e passa a desconfiar da própria corporação; Farinha, um membro da gangue da Xuxa Preta que recebe uma missão em plena noite de Natal; e Jéssica, uma jovem, filha de um político importante, que usa a Xuxa Preta como trampolim eleitoral.
A nova edição conta com projeto gráfico assinado por Gabes Regina, que fez a primeira capa e que voltou pra dar um brilho que a história merece; revisão de Gabriela Araújo; prefácio de Karine Ribeiro (Laura Está Matando Estranhos); comentários de Verena Cavalcante (Inventário de Predadores Domésticos, Como Nascem os Fantasmas), Hache Pueyo (But Not to Bold, Cabaret in Flames) e G. G. Diniz (Morte Matada, A Diplomata). Muita coisa.
O lançamento será numa campanha de financiamento no Catarse que já se inicia em março. Além do impresso e do novo e-book, teremos alguns brindes como posters, postais, kit wallpapers e porta-copos. E, claro: a possibilidade de uma edição capa dura, se as metas estendidas forem batidas.
Importante: a versão e-book de Xuxa Preta: Edição Definitiva não vai estar disponível na Amazon pós campanha, pois vai ser exclusiva.
Vocês podem ativar o lembrete do Catarse do lançamento da campanha clicando aqui. Espero vocês em março?
Meu gato tem medo da Xuxa Preta e isso pra mim é validador de muita coisa. Mas nem tudo é sobre medo, então espero que vocês sintam outras paradas também quando tiverem a nova edição em mãos.
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